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Ignacio Morón, uma das vítimas de Paul Gregg, fala sobre o caso

ignacio-moron - foto WPT joe Giron

O mundo do poker foi abalado por um escândalo no início desta semana, com a revelação da existência de um trojan que atacava os computadores de jogadores de poker online, ganhando acesso aos mesmos. Esquema que permitiu ao malfeitor(es), ganhar milhares ou até mesmo milhões nas salas de poker. Uma das principais vítimas foi o profissional espanhol: Ignacio Morón.

Todos os dias surgem novas informações, declarações e testemunhos de vítimas deste crime. Um dos primeiros a abordar o caso foi o espanhol Manuel J0hn Mcclean Saavedra, que teve o programa instalado mais de um ano no seu computador.

Outra vítima que deu a cara foi um compatriota de Saavedra, Ignacio Morón. Jogador espanhol de cash games, com mais de $2 milhões ganhos em torneios de poker ao vivo, e que reside no México.

Em entrevista ao site Poker-Red, Morón falou do seu caso em particular, e também revelou que as contas suspeitas já tinham sido sinalizadas há muito tempo entre os jogadores e que as salas receberam várias denúncias ao longo destes 2 anos.

A base das conversas de que Morón fala, é um grupo de Discord entre jogadores high stakes criado com o intuito de combater a utilização de RTA's (real time assistance).

Apesar de os relatos de mãos estranhas terem surgido há cerca de dois anos, um dos membros do grupo disse ter descoberto que tinha o programa infectado no seu pc desde Dezembro de 2022.

Os primeiros relatos nesse grupo têm como alvo as contas PGS (na rede WPN), cujos valores anormais eram muito similares à conta PG6123 (na GGPoker). Números tão bons que Alex Trev, um dos membros do grupo, disse que pareciam estar perante um superuser.

Na WPN o malfeitor foi mudando de contas, e até agora Morón apenas tinha os dados completos das vezes em que jogou contra o nick OxOO (o mais recente). Dono da conta TIKITAKA11 na WPN, Morón disputou 4.763 mãos contra OxOO, perdendo $42,700. Já contra a conta anterior, JackKlompus, ainda não tinha conseguido juntar todos os dados, mas tem a certeza que perdeu mais de $100,000. Diz mesmo que mais perto de $200,000 do que os $100,000. E diz que acabou por ter alguma sorte, porque há dois meses comprou um computador novo e nessa altura formatou o velho, por isso neste último par de meses já não tinha o trojan nos seus computadores.

Se os números na WPN já eram estranhos, um incidente muito particular fez soar o alarme. Em Dezembro de 2024 a CoinPoker realizou o seu primeiro Championship, e os jogadores tinham todos os seus nomes reais. Todos menos um, um Europe. Morón jogou contra esta conta em 3-handed e 4-handed sem resultados de relevo. O alarme tocou quando jogou heads-up, tendo perdido $60,000 (12 buy-ins), em menos de um quarto de hora.

Um sinal preocupante, reforçado por uma mão que não esqueceu:

Morón tinha par de setes, um deles de paus. Após o flop [acjc7d], Europe apostou e recebeu call.
Turn: 8
O turn ajudava a representar o flush, mas também a sequência. Europe check, Morón apostou 40% do pote e Europe pagou.
River: [ c 2x]
Check de Europe, Morón apostou o pote e de imediato Europe clicou no all-in. Tinha Ases para um trio melhor.
Morón explica que os ases podem parecer uma mão muito forte, mas na sequência desta mão não tem sentido ainda para mais com a velocidade da decisão tomada.

Desde esse momento Morón deixou de jogar contra Europe, conta que teve várias queixas na CoinPoker. A sala começou a investigar o caso e cerca de um ano depois, um dia depois do aniversário de Morón, um representante da sala contactou-o para dizer que tinham apanhado um batoteiro (não revelaram a identidade) e que vários jogadores iriam ser reembolsados. Entre esse grupo de pessoas, Morón tinha sido o mais afectado. Durante o período de investigação a conta Europe ficou bloqueada. Ao ser reembolsado em $60,000, Morón assumiu de imediato que o caso estava ligado a Europe, à conta daquele anormal quarto de hora em heads-up.

Após ser reembolsado e ligar o caso à conta Europe, Morón perguntou no Discord se esta conta não pertenceria à mesma pessoa que jogava com o nick JackKlompus,  que nessa altura estava já sinalizado nesse grupo. Um grupo que a certa altura passou a acolher representantes das salas GGPoker e ACRPoker, com o intuito de ficarem a par das preocupações dos jogadores. Mas, diz Morón, apesar de mais de duas dezenas de denúncias a única sala que até agora tomou medidas foi a CoinPoker. E por isso, Morón, diz não conceber um futuro onde as salas não sejam responsabilizadas por isto, pois foram alertadas diversas vezes pelos jogadores sem tomar medidas, durante um vasto período de tempo.

Segundo Morón, o meliante é um jogador de poker com bons fundamentos, que sabendo da importância da winrate na análise de padrões, começou a maquilhar os seus números. Como? Se nos níveis mais altos chegou a ter uma winrate de mais de 24, começou a jogar e a perder nos níveis mais baixos, baixando assim a winrate total para números mais normais. Tudo isto com um lucro muito alto.

Tendo acesso total aos computadores infectados, o cheater também estava atento ao que estes escreviam nestes grupos de debate. Num dos prints partilhados por Morón, um dos membros faz uma pergunta sobre um dos nicks, e pouco tempo depois disse que o adversário tinha fechado a sessão e entrou com outra das contas sinalizadas.

Na parte final da entrevista, Morón diz que até à gravação da mesma, este grupo de jogadores não teve qualquer feedback das salas desde que se tornou público o problema.

Quanto aos valores que Paul Gregg terá ganho com este esquema, Ignacio Nacho Morón estima que na WPN ganhou quase $1 Milhão e que apesar de o histórico de mãos apenas permitir analisar os últimos meses, os reports dos diversos jogadores apontam para que tivesse ganho mais de milhão e meio na GGPoker.

O profissional espanhol diz que este caso deve levar as salas a acreditar mais no feedback dos jogadores, ainda mais quando implica um elevado número de profissionais, com elevada capacidade analítica e até intuição sobre os movimentos que provocam um alerta. E estranha que neste tipo de casos não exista troca de informação entre as salas, lembrando que a CoinPoker baniu a conta Europe há quase dois anos, conta de Paul Gregg que desde então jogou com o seu nome real nas mesas da GGPoker.

*foto WPT/Joe Giron