Bryn Kenney: “Se tivesse de jogar GTO para ganhar, não teria interesse no poker”

Bryn Kenney continua a ocupar o topo da lista de jogadores com mais ganhos na história dos torneios ao vivo. Com mais de $90 milhões acumulados em prémios, o norte-americano já conquistou praticamente tudo o que o poker tem para oferecer.
Ainda assim, quando fala do jogo, Kenney opta por não falar de milhões, rankings ou títulos. O profissional americano foca-se em algo mais profundo.
Nesta entrevista, Bryn traz à tona a integração, ou falta dela, fora das mesas, a criatividade do seu jogo e acabou por pedir desculpas a quem possa ter magoado. O All-Time Money List abriu o coração e o desabafo é por demais interessante.
“Jogo um jogo diferente”
Para o #1 mundial, o poker é muito mais do que matemática e estratégias pré-definidas. É uma forma de expressão. Kenney não esconde que nunca se identificou com a ideia de existir apenas uma forma correcta de jogar poker.
O jogador acredita que cada um pode construir a sua própria estratégia, desde estilos extremamente tight até abordagens muito agressivas.
O jogo de poker é uma forma de arte para mim. Vejo-me como um artista, mas com duas cartas. A forma como jogo e penso sobre poker permite-me expressar a minha criatividade. Podes construir uma estratégia desde super tight até super agressiva. O que funcionar para ti.
Para ele, cada decisão representa mais uma pincelada naquilo que está a tentar construir numa mão. É também por isso que não se revê numa abordagem demasiado rígida ao estudo do jogo. Questionado sobre o que faria se estivesse agora a começar no poker, em 2026, a resposta foi particularmente directa.
Se tivesse de ouvir os comentários actuais sobre poker, de que tens de jogar GTO para ganhar, teria pensado que este jogo é terrível. Não teria interesse. Não quero estudar.
A frase não significa que Kenney ignore a teoria. Ele apenas não acredita que o poker tenha de ser reduzido a uma fórmula. Na sua perspectiva, existem diferentes caminhos para chegar ao topo.
O lugar onde se sente normal
Apesar de todo o sucesso alcançado nas mesas, Kenney admite que nem sempre se sentiu integrado fora delas. O jogador recorda os tempos de escola e explica que sempre teve a sensação de pensar de forma diferente da maioria das pessoas à sua volta, sendo precisamente nas mesas de poker que encontrou uma comunidade onde essa diferença deixou de ser um problema.
Há muitas pessoas no espectro autista e os jogadores ganhores no poker, têm um elevado grau dessa característica. Eles pensam fora da caixa, razão pela qual são génios da resolução de problemas. No entanto, é possível indentificar-me com essas pessoas e ter boas conversas nas mesas.
Para Kenney, essa capacidade de pensar fora da caixa é uma das características que distingue os melhores jogadores.
A maioria das pessoas conforma-se com aquilo que o sistema lhes apresenta na vida. Sinto que o poker é exactamente o oposto disso.
A imagem abaixo representa a forma como Bryn está nas mesas de poker, a conversar, a rir. Para ele, é o lugar onde se sente normal.
“Todos vamos cometer erros”
A entrevista acabou por ir muito mais além do poker. Kenney falou também sobre um recente desabafo nas redes sociais, no qual assumiu erros cometidos ao longo da vida e pediu desculpa a pessoas que possa ter magoado. O norte-americano acredita que existe uma pressão desnecessária para que as pessoas tentem mostrar uma versão perfeita de si próprias.
Por outro lado, Kenney acredita que enquanto somos jovens, a falta de maturidade, leva-nos a tomar decisões precipitadas, das quais não nos orgulhamos e não tomaremos posteriormente.
Todos estamos a tentar aparecer na nossa melhor versão. Ao mesmo tempo, temos de aceitar que vamos cometer muitos erros, falhar e ir ao fundo. Sempre fui incrivelmente duro comigo próprio para ser melhor. Também aprendi a perdoar-me, permitindo-me cometer erros.
Uma das reflexões mais interessantes de Kenney surgiu quando falou sobre a sua tendência para tentar ajudar outras pessoas e como aprendeu a deixar de o fazer.
Como alguém que resolve problemas para viver, vês decisões que as pessoas estão a tomar nas suas vidas e consegues facilmente perceber mudanças que poderiam ajudá-las a ter mais sucesso ou a viver uma vida mais feliz. Muitas vezes, as pessoas não querem isso de ti. E depois aprendes que o teu trabalho não é lhes dar isso.











