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Raul Mestre – A Estagnação do Poker: Apontamentos Sobre o Debate

Raúl Mestre lançou um primeiro artigo sobre a Estagnação do Poker onde dissertava sobre problemas e soluções. O mesmo lançou o debate em Espanha e posteriormente aqui mesmo no PokerPT.com, no Fórum, na notícia e também num Re-Raise com Caco Pinto.

Feito o balanço da discussão em Espanha, Raúl disserta novamente sobre algumas das questões que foram levantadas.

O primeiro artigo sobre a situação actual do poker e as possíveis soluções gerou muito debate. Não me surpreende uma vez que é um tema muito complexo e que não se trata frequentemente, para além de que as soluções apresentadas podem parecer surpreendentes.

Vou tentar dar a minha opinião sobre as linhas de debate mais importantes que se criaram em resposta ao artigo original.

Regulares Melhores e Metagame, Escolas de Poker e o seu Impacto no Ecossistema

A evolução do Metagame (o que quer dizer, jogadores regulares melhores) só prejudica os jogadores já regulares e aqueles que pretendem alcançar essa posição. No entanto, este não era o ponto central do artigo.

Sem dúvida que o nível de jogo subiu e para os jogadores cujo o objectivo passa por ganhar dinheiro, têm muito mais dificuldade hoje do que há cinco anos atrás. Faz falta mais formação e há que dividir o dinheiro dos jogadores mais fracos entre mais gente.

Contudo, o artigo não é sobre o facto de hoje ser preciso saber jogar melhor para ganhar o mesmo que há sete anos atrás (a resposta é um convicto sim), mas sim quais são os problemas que provocam a contracção do mercado do poker e diminuam a sua rentabilidade.

As escolas de poker (entre elas o EducaPoker) aumentaram o nível de jogo e aqui não há margem para dúvidas. A questão é se este efeito é negativo para o ecossistema.

Para este, creio que na verdade, o efeito global é ligeiramente positivo. Há mais regulares, os piores regulares desaparecem e no final há um equilíbrio com o dinheiro que entra na sala. Introduzir ou eliminar regulares não altera absolutamente nada. Aliás, durante algum tempo, os piores regulares perdem dinheiro; isto é, alimentam o sistema (e não fazem cashouts) até baixarem de nível ou deixarem de jogar. Mesmo os regulares ganhadores têm de gerar mais rake para obter os mesmos benefícios.

Dito de outra forma, a quantidade de jogadores regulares que um ecossistema pode manter depende unicamente da quantidade de amadores que joguem e que estão dispostos a continuar a jogar, mesmo que não ganhem dinheiro. Introduzir mais regulares ou melhorar os existentes não muda absolutamente nada, simplesmente vamos ter novos regulares a ganhar dinheiro e os velhos a desaparecer (ou os velhos melhoram e colocam os outros na situação de perdedores).

A pergunta correcta é então: Será que o efeito do ensino prejudicou os jogadores amadores?

Há sete anos, quando começou o boom do Cash No Limit, os jogadores ocasionais perdiam dinheiro ao mesmo ritmo que hoje. Já existiam jogadores “profissionais” e amadores, gente melhor e pior. Para ganhar dinheiro a um amador basta ter alguns conhecimentos de “ABC Poker” que qualquer livro de há dez anos atrás explicava. Isso não vai mudar, uma vez que estes conhecimentos são facilmente adquiridos. Nessa altura, os regulares ganhavam 20bb/100 em NL cash e a sangria das salas era pior que agora. O simples facto de oferecer um serviço que era completamente novo para todo o mundo, com a enorme captação que isto facilitava, fez com que o poker online crescesse de forma contínua.

Em comparação, esses regulares eram muito piores que os actuais, mas ganhavam com winrates que hoje são impossíveis de alcançar. Um regular de NL5000 há 7 anos atrás, jogando da mesma forma hoje, não seria ganhador em NL1000.

O que realmente aprendes em escolas, artigos e material informativo é como melhorar o teu jogo contra outros regulares, uma vez que ganhar a um amador, no longo prazo, é relativamente fácil. Ganhando ou perdendo esta batalha, a dos regulares, o ecossistema não vai mudar. O que realmente influencia a manutenção do ecossistema é fazer com que os amadores se divirtam enquanto jogam poker. Os erros dos amadores são enormes e o NL permite que estes sejam explorados com demasiada facilidade.

O mesmo se passa com os programas estatísticos: são valiosos para jogar contra regulares. Contra um amador vais ganhar uma quantidade enorme de bb/100 em qualquer caso.

Chama-me especialmente à atenção o ponto de vista dos jogadores que estão agora em níveis médios/altos graças à formação das escolas, que pensam agora que estas são responsáveis pelo aumento do nível de jogo/dificuldade do nível. Claro que os regulares são melhores graças às escolas, tu incluído. Mas se hoje se pode ganhar menos dinheiro nas mesas é porque a entrada de jogadores fracos se reduziu drasticamente. Suponho que é normal que cada um olhe por si mesmo. Chegar a jogar High Stakes graças à formação recebida é estupendo, mas seria melhor ainda se mais ninguém o fizesse e ficasses sozinho sem concorrência. Isto é compreensível de um ponto de vista egoísta, mas certamente não pode ser argumento de algo melhor para o ecossistema.

Sem dúvida que a saúde do poker online está comprometida, não porque há demasiados regulares mas porque os jogadores ocasionais não desfrutam do que se passa nas mesas. E isso pouco ou nada tem a ver com o que fazem os jogadores regulares.

Insisto no exemplo de 10 amadores a jogar juntos NL cash. Em menos de 10 minutos, 80% está “sit out” e sem fundos. Não importa o win rate médio. Se nos centrarmos nestes 10 jogadores, todos estarão break even no long run a jogar uns contra os outros (bom, perdem a rake). No entanto, como a sua percepção de banca para jogar um nível está distorcida, a maioria perderá tudo pelo caminho. E o pior de tudo, é que o vencedor da batalha de amadores subirá de nível e colocar-se-á novamente na mesma situação (Quantas vezes um jogador termina realmente uma sessão com dinheiro em NL Cash?). Nem sequer importa a sua win rate, o problema é com a sua gestão de banca (e o seu estilo de jogo obviamente também não ajudará) que o leva a ficar a zeros em poucas mãos. Como não vai desfrutar da sua experiência no poker online não vai voltar a jogar nem o vai recomendar aos seus amigos.

O win rate só se materializa a longo prazo e isso nem interessa muito, a menos que o jogador ocasional tenha prazer na sua experiência.

E aqui está onde todos, a sala, os regulares e os amadores saem a perder. As salas e os regulares por questões puramente económicas, os amadores porque perdem uma alternativa de lazer que tinha sido suficientemente atractiva para realizar um depósito mas que não foi capaz de satisfazer as suas expectativas. Com o tempo, começam a existir cada vez menos amadores, as salas têm cada vez mais dificuldades em captar novos jogadores que não conheçam o produto e o mercado contrai-se (já estamos neste ponto). Portanto, as mesas ficam cada vez mais difíceis.
Os piores regulares deixam de ser capazes de ganhar e sobram os jogadores de topo e os bumhunter (“caçadores de patos”), que para além disso, podem jogar muito menos mãos.

As escolas também dão guarida a alguns jogadores amadores que provavelmente não estão interessados em investir o tempo e esforço necessário para estudar e explorar o jogo a fundo, mas que se sentem bem com o meio que estas lhe proporcionam encontrando recompensa de entretenimento que procuravam: pertencem a uma comunidade, participam nas suas actividades, informam-se, lêem histórias de outros jogadores. Não estou a dizer que estes são uma maioria dos jogadores de uma escola, mas estes têm também um efeito positivo. São amadores que entram no sistema, que desfrutam do poker de uma forma razoável (com gestão de banca, etc) que não tinha existido fora das escolas.

No que refere a dados, a indústria está a contrair-se desde 2010 e todas as salas de poker com quem temos contacto falam da retenção e reactivação de jogadores como o maior dos seus problemas.

Ao Vivo há Muito Amadores e continuam a existir. O Poker ao Vivo, cresce

Claro! O Poker ao vivo é muito mais divertido para o amador. Tem um processo muito mais lento de perda de dinheiro (menos mãos por hora). O divertimento que recebe a troco de investimento é melhor e portanto está disposto a jogar mais vezes. Mas ainda assim, estou seguro que todos conhecem um caso de um novato que perdeu tão rápido o seu dinheiro que decidiu não jogar mais para tristeza de toda a mesa.

Alternativas ao Fim do Cash

Podem existir. As ferramentas de controlo de banca sugeridas podem funcionar, mas dão lugar a um cash marginal e muitos destes jogadores teriam a sensação de estar a jogar microlimites por obrigação. Poderia funcionar quiçá convertendo em jogo dentro do próprio jogo, deixando ganhar o acesso aos níveis superiores através do que se sucedesse nas mesas. Não sei.

É muito complicado especular. O que está claro, é que a ideia de cash como a concebemos hoje deveria deixar de existir para bem de todos os que ganham hoje a vida com o poker, quer sejam as empresas quer sejam os jogadores profissionais. E esta decisão, a ser tomada, terá de ser pelas salas pois os jogadores não podem fazer muito a este respeito.

Aspecto Desportivo

Para o marketing, patrocínios e outros meios é muito mais atractivo potenciar torneios do que qualquer modalidade de cash. Isto não é nada que eu tenha inventando, nem será a principal razão, mas seria uma vantagem adicional contar com os torneios também como eixo central da estrutura de jogo online.

Outras Modalidades de Cash (Limit, Omaha)

O Limit seria mais interessante (pois o jogador receber mais tempo de divertimento com o mesmo dinheiro) mas é um produto difícil de promover um produto que o jogador não viu na televisão. O Limit como formato televisivo é terrível e o No Limit é espectacular. Ainda que se pretenda será impossível, mas pode ser uma oferta a estudar.

O Omaha é igual ou pior ao No Limit Cash. Qualquer variante de apostas que seja Pot ou No Limit é devastadora para os amadores por ser ainda mais complicado de gerir a banca e a percepção das apostas.

Interesse do EducaPoker

Só tenho a dizer que este artigo não é exactamente fácil de publicar. Passei sete ou oito anos a jogar poker e três a produzir conteúdo, com uma grande parte deste a ser focado em No Limit Cash. Não tenho nenhum prazer em pensar que esta modalidade é uma “erva daninha” e muito menos publicá-lo, mas é o que as reflexões dos últimos meses me leva a pensar.

Pessoalmente, tanto pelos jogadores de poker com quem tenho uma relação pessoal como pela minha empresa, interessa-me que o poker online funcione o melhor possível durante o máximo de tempo possível. Para que isto aconteça, creio que a indústria tem de se centrar no divertimento obtido pelo jogador recreactivo quando vai a uma sala de poker e lhe dê uma oportunidade. Isto, por sua vez, beneficiará os jogadores regulares, ainda que tenham de se adaptar a mudanças pertinentes. Creio que se não se mudar o foco da indústria, as mesas ficarão cada vez mais difíceis até a um ponto que será insustentável.

As salas não gostam muito que alguém de fora lhes diga o que devem fazer, sobretudo quando implica uma mudança tão drásticas. No final, os executivos das empresas são também trabalhadores e uma mudança desta magnitude que corra mal implica despedimentos em 100% das vezes, enquanto que deixar que as coisas se vão deteriorando a pouco e pouco permite deitar a culpa a elementos externos preservando o teu lugar comodamente.

Desde o início, como os comentários ao primeiro artigo demonstraram, escrevê-lo não me deu um novo rol de amigos, pelo contrário. E sem dúvida, penso que é importante expor.

Por fim, obrigada a todos pelos comentários e pela vossa opinião. Alegra-me ver que é um tema, que pelo menos, gerou muito debate.

Texto original publicado em Poker Red

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6 Comentários

aeroporto há 9 anos

"Em casa sem pão, todos ralham e ninguém tem razão."

pfrancodias há 9 anos

Embora o artigo esteja bem escrito e bem estruturado, acho estranho a omissão dos 3 factores mais importantes, a meu ver, do declinio do numero de jogadores. 1º A perda de Cledibilidade que toda a industria do Poker online sofreu com a Black Friday. Não houve nenhum jogador, de nenhuma sala que não se tivesse questionado se o dinheiro que tinha na sua sala estava a salvo, ou poderia desaparecer como aconteceu aos jogadores da FullTilt. Imaginem os que estariam a pensar entrar. 2º A proibição de jogo online do jogadores Americanos. Sendo desde sempre o maior mercado, a simples razão de não existirem jogadores Americanos, refriou a procura nos restantes mercados. 3º A Crise Europeia. Sem ser nos Países de Leste, os cidadãos dos restantes Países Europeus estão ou com menos dinheiro disponivel, ou com a sensação que esta não é uma boa altura para andar a brincar com dinheiro em jogos online. A crise obriga as pessoas a gerir mais cautelosamente os seus gastos. Os de lazer incluídos. E para os tais amadores o Poker online é uma actividade de lazer como outra qualquer. Quanto a soluções para estas 3 questões, a 3ª naturalmente está fora do controlo da industria do Poker. Mas especialmente a questão da credibilidade (para mim a mais importante e absolutamente decisiva), pode e deve ser atacada de vez. A industria que de conseguir passar uma imagem de imaculada seriedade. E enquanto as licenças forem atribuidas e auditadas por comissões manhosas em reservas de Indios e afins, com os resultados que todos vimos à cerca de 1 ano, o cidadão comum continuará a pensar este jogo é só mais um jogo viciado.

Abrando2 há 9 anos

Ou acabam com HM e venda de mãos... ou PKR online acaba! Essas ferramentas aceleram a rapadela aos "Patos" por isso eles não se divertem...

FOLDASE há 9 anos

Como diz o outro... " just play, baby ! "

Hooligato há 9 anos

Isto: "Sem dúvida que a saúde do poker online está comprometida, não porque há demasiados regulares mas porque os jogadores ocasionais não desfrutam do que se passa nas mesas."

Goodtiltt há 9 anos

Mais um grande artigo deste Senhor. Muito bem visto e actual.



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