Gavin Griffin faz um retrato dos seus últimos anos

O norte-americano foi uma das primeiras grandes estrelas do poker, o primeiro jogador a ganhar uma Triple Crown, e confessou no final de Fevereiro que andava agora a jogar Low Stakes nos casinos próximos de casa.

Agora em entrevista ao site pokerlistings que podem ver aqui, Griffin explica todo o processo que levou um jovem milionário a ter de descer vários níveis de jogo, para recomeçar de novo.

Na entrevista que a seguir traduzimos na íntegra, ficamos a saber que Griffin e a sua esposa passaram não por 1, mas por 3 abortos involuntários, e que isso tudo aconteceu quando estava em jogo o seu contrato com a PokerStars.PT.

Eis a entrevista de Griffin:

Gavin Griffin: Uma questão de orgulho e necessidade

P: Referiste no teu blog que “2011 esmagou muitos dos meus sonhos e a maior parte do meu ego”. Gostavamos de ter mais detalhes sobre os últimos acontecimentos da tua carreira.

R: Os anos de 2007 e 2008 foram muito bons para mim, com a conquista do EPT Monte Carlo e o WPT Borgata e, pouco depois, assinei pela PokerStars. Tudo estava a correr muito bem.

Era um acordo muito bom para mim. No segundo ano em que fui PokerStars, o acordo era menos lucrativo mas ainda assim estava bastante contente com eles porque era o maior site de poker do mundo e o mais fiável.

Depois, em 2010, a PokerStars reformulou a sua gestão e trouxeram sangue novo para liderar os Team Pros e novos planos fixes para mim.

Mencionaram que estava subvalorizado e queriam colocar-me a fazer comentários pois já tinha demonstrado inclinação para tal. Fiz audições para ser o apresentador do The Big Game, entre outros projectos que estavam em desenvolvimento.

Seis meses após a audição para o programa e não o ter conseguido, chamaram-me e informaram-me que não iam renovar comigo.

O meu contrato acabava em Maio e achava que tinha chegado ao fim da linha. Eles basicamente disseram “Não vamos renovar contigo e não há grande coisa em que te podemos promover.” Foi aqui que mudou qualquer coisa.

Na essência referiram que iriam estender o meu contrato até depois das WSOP, mas se fizesse umas boas series ou ganhasse algo significativo que falaríamos sobre uma extensão do mesmo.

Isto definitivamente colocou bastante pressão em mim para aquele Verão. É difícil jogares o teu melhor quando não é apenas o torneio que está em risco, mas toda a relação que tive com o site.

Obviamente que não era o maior e mais caro patrocinado da sala mas era uma boa aquisição, olhando para o mundo do poker na altura.

Sabia que não estava na minha melhor forma mas, baseado no que se discutia, não esperava que acabasse assim.

Acho que foi aqui que a minha mentalidade se virou para uma perspectiva mais negativa.

Depois passei pelas World Series sem resultados de relevo.

P: Há muitos que atiram frases como “Confirmed Busto”. É verdade?

R: Recebi muito e bom feedback no meu blog mas continuam a haver muitas pessoas que basicamente só dizem “Como é que alguém consegue perder algo como $5 milhões?“.

Primeiro, não é bem $5 milhões mas, independentemente disso, nem todos têm noção do que custa viajar e jogar todos estes torneios ao vivo nos dias de hoje.

Em Monte Carlo fui bancado, por isso recebi menos de metade do prémio. Recebi perto de $1.2 milhões em vez dos $2.4 milhões. Vivo no estado da Califórnia onde pagamos impostos mais altos do que muitos.

Paguei cerca de $1 milhão em impostos em 2007 e 2008, e muito do prémio da conquista no Borgata tinha sido investido numa conta de investimento.

Isto foi em 2008 e muito do dinheiro já não existia. Foi um ano em que muitos jogadores tiveram dificuldades de várias formas.

Basicamente foi a convergência destas várias situações negativas, todas duma vez.

Também perdi bastante dinheiro na bolsa e, embora já tenha melhorado desde então, quando estava em baixa chegaram os impostos para pagar e tive que mover muito dinheiro para os pagar.

Foi uma espécie de tempestade perfeita de más situações.

No entanto, as pessoas têm que compreender que não estou a zero, de forma alguma. Ainda tenho dinheiro no banco e a minha esposa tem um bom salário.

Ela é uma engenheira civil de sucesso e nada disto seria possível sem o seu apoio.

Por isso decidi que, devido ao facto de estar a jogar mal e a gerir mal a minha banca, devia descer para limites mais confortáveis ou arranjar empréstimos que piorassem ainda mais as dívidas ou mexer nas poupanças da família.

Tudo isto surgiu numa altura em que, talvez sem tanta coincidência, estávamos a lidar com muitos assuntos sérios, a tentar manter as finanças saudáveis e ainda a enfrentar questões emocionais porque foi um ano complicado em termos de saúde na minha família.

Estou certo que tudo assim ocorreu por causa da pressão adicional de tudo isto.

P: Se te sentires confortável a falar disso, podes revelar o que tiveste que passar, tu e a tua esposa, e como isso influenciou o teu jogo?

R: Eu e a Amy casamos em Julho de 2010, embora sempre tivéssemos a ideia de não nos casarmos mas apenas vivermos juntos, pois não tínhamos planeado ter filhos ou semelhante.

Mas decidimos ter filhos e por isso decidimos casarmo-nos, com a ideia de começar a construir família em dois ou três anos.

Mas a Amy ficou grávida em Outubro e perdemos o bebé em Janeiro. Ficou grávida em Maio e perdemos o bebé outra vez em Junho, situação que se repetiu de novo em Outubro.

Por isso estávamos a lidar com três interrupções de gravidez involuntárias e toda a incerteza que tal acarreta, junto com todos os outros problemas, era muito para lidar. Tentar descobrir como seguir em frente e encontrar soluções para os problemas que passávamos é basicamente o que está na minha mente, a toda a hora.

Tudo isto causou, como é óbvio, problemas na nossa relação.

Como já disse, tudo resultou na tempestade perfeita de más situações que estou a tentar resolver, mas não há exactamente um guia para mim e para a Amy nestes casos.

P: Então isto passava-se num nível pessoal, ao mesmo tempo que sentias muita pressão ao nível profissional?

R: Certo e está mais difícil de ganhar a vida a jogar poker profissionalmente nos últimos três anos. Todos estão a jogar melhor, mais os efeitos da Black Friday.

< p style="text-align: justify; ">Tenho a sorte de viver na zona de LA, onde os jogos ainda são bons mas nada do que costumava ser.

A economia também parece ter desempenhado o seu papel. As pessoas têm menos dinheiro para serem maus jogadores.

Isto já está a começar a soar mais a um “Pobre eu” e eu não quero nada disso.

P: Parece que há muito de ego envolvido em baixar de limites, e muita ilusão no poker no que diz respeito à pretensão de que os Pros são mega-ricos e tal, é refrescante ouvir-te ser tão aberto sobre o assunto.

Podes revelar o que sentes sobre as decisões que tomaste e qual o plano para o futuro?

R: É verdade que há imenso ego entre os jogadores de poker, como: se chegaste a um certo estatuto no mundo do poker e baixas é porque falhaste.

Parece impossível o conceito de descer quando ultrapassaste um certo limiar.

Mas esta é uma carreira como as outras, há momentos em que tens muito sucesso e outros em que as coisas não vão na tua direcção.

Se reparares nas tendências deste país nos últimos quatro ou cinco anos, vês que as coisas ficaram más para muitas pessoas em diferentes indústrias. Porque haveria o poker de ser diferente?

Há menos dinheiro a entrar na indústria do poker, por isso há várias quebras que irão acontecer.

Há pessoas que tinham empregos altamente que estão forçadas a trabalhar como jardineiros ou parecido.

Eles estão a fazer de tudo para manter as suas famílias juntas e para manter as suas casas. Eu estou a fazer o mesmo, na essência.

Acho também que no poker acaba por ser ainda mais difícil porque o jogo é uma plataforma baseada no mérito, onde se és melhor do que os outros, vais ganhar mais e é assim que as coisas são.

Por isso tenho que encontrar uma forma de melhorar.

Outro aspecto é que por causa do meu sucesso nos torneios nunca tive que construir uma banca de verdade desde que comecei.

No início tinha que jogar muito e duro. Trabalhava como dealer de sábado a terça e jogava os restantes dias em casinos diferentes. E quando me despedi, estava a jogar muito. Joguei muito poker online e trabalhava no duro.

Depois ganhei o evento WSOP e o dinheiro permitiu que relaxasse o meu jogo, pois tinha o suficiente para os anos seguintes. E depois ganhei Monte Carlo.

Como tal, depois de 2004 nunca tive necessidade de construir uma banca e é isto que estou a tentar fazer por uma questão de orgulho e necessidade. Posso fazê-lo e estou orgulhoso de tal.

Tenho orgulho em não ter problemas em jogar limites mais baixos. Já fui apanhado a jogar $8/$16 no Commerce e perguntaram-me se já tinha jogado na TV, ao que respondi “Não“.

Estava lá a jogar $8/$16, quando no passado já fui regular de $200/$400, tendo jogado até $1.000/$2.000 Limit. Por isso, estar lá durante o LAPC, a melhor altura para jogar no Commerce, estar a jogar $8/$16 e ver muitas pessoas que conheço à minha volta, fez com que baixasse a minha cabeça várias vezes, evitando ser descoberto.

Disfarcei-me um pouco, na altura, pelo menos até ao artigo sair.

P: Já o referiste, mas há orgulho na forma como estás a lidar com a adversidade na tua vida profissional e pessoal?

R: Sim, definitivamente. Tenho muito orgulho. Orgulho em poder ser honesto comigo mesmo.

Escrevo para a CardPlayer, ensino na WSOP Academy e estou a dar tudo para melhorar as coisas. Estou de volta à escola.

Mas é, na realidade, um testamento à minha esposa, ao apoio dela e à força da nossa relação. Ao facto de ainda estarmos juntos nesta altura, ao contrário do que é normal acontecer aos casais que passam pelo que nós passamos.

Algumas pessoas podem discordar mas descobrimos que cada uma das situações com os nossos filhos teve um impacto enorme nas nossas vidas e amamos cada um dos bebés que perdemos. Estas perdas tiveram um tremendo impacto nas nossas vidas e na nossa relação.

Embora seja muito difícil não sabermos se alguma vez teremos filhos ou o que se passará no futuro, apenas o facto de que ainda estamos aqui, ainda nos ajudamos e continuarmos a avançar é uma forte prova da nossa relação e do amor entre nós.

É disto que tenho mais orgulho, mais do que qualquer coisa relacionada com o poker.

É esta a nossa luta e essa luta torna tudo mais precioso.

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6 Comentários

Jack_of_Hearts há 6 anos

Parafraseando o entrevistador, esta prespectiva franca sobre o lado oculto do "glamour" do poquer e refrescante, tendo em conta a maioria das "ego-trips" tao prodigas na maioria dos jogadores que nos tentam vender o conto-de-fadas "cliche" que consiste em terem começado em "freerolls" ou terem feito o costumeiro - quase minimo - deposito de $50 e terem chegado a milionarios. A parte do sonho que eles omitem e que muitas vezes muitas vezes nao tem todo o dinheiro que lhe atribuem porque foram bancados p/ jogar nos torneios de mais elevado BI onde se inscreveram e consequentemente tiveram de abdicar de parte substancial do premio, ja p/ nao falar das consideraveis somas que sao gastas em despesas acessorias indispensaveis a um jogador poquer ao vivo(viagens, alojamento, deslocaçoes) - certamente aliviadas neste caso pois o jogador era patrocinado - e os inevitaveis elevados impostos.Por falar em patrocinios, acho pouco compreensivel que dispensem levianamente assim um dos poucos jogadores pertencente a elite detentora duma "triple crown" so porque nao teve nenhum resultado de grande relevo ultimamente, reforçando a convicçao que o marketing e mais importante do que a "skill", e que o seu tempo na ribalta ja tinha passado.E com os lamentaveis incidentes intra-familiares - que eu desconhecia - nao e de esperar que o jogador esteja focado e jogue o seu "a-game".Depois da ascensao meteorica, mais do que humildade,uma pouco usual sensatez e o que o Gavin exibe apos isto tudo.O facto de ter tido um par de anos consecutivos fabulosos e tenha ganho uma boa soma de dinheiro num curto espaço de tempo, nao lhe tenha dado margem - nem ele tenha sentido necessidade disso - p/ construir uma banca apartir de niveis mais modestos que o ajudasse a criar uma disciplina e bons pilares de gestao de banca..Lembro-me de ele ter confidenciado numa recente entrevista ao jared tender no podcast de "poker mindset" na "quadjacks"(mais recente guru do "mental coaching" e segundo me constou anda a ajudar o naza nos aspectos psicologicos do seu jogo) que, apesar de nao ser dado a grandes extravagancias consumistas , talvez devesse ter passado mais tempo a jogar nos tempos aureos da "Party" em 2004 e menos tempo na boemia e a passar tempo c/ a familia pois ele tinha a ideia equivoca que os tempos em que o jogo era facil pois os fields estavam pejados de donks iriam durar p/ sempre,o que obviamente nao sucedeu.Aqui fica o link p/ quem estiver interessado em ouvir a totalidade da entrevista:http://quadjacks.com/2012/03/15/the-mental-game-with-jared-tendler-feat-gavin-griffin-quadjacks-poker-mindset-radio-march-14-2012/ .

diax há 6 anos

nem tudo é um mar de rosas

sintrapkr há 6 anos

Gostei de ler.Grande humildade.

Henriquem há 6 anos

Espero que daqui para a frente lhe corra tudo pelo melhor. A face mais oculta do poker está aqui bem demonstrada.

Sr_motim há 6 anos

Respect.

kingchanell há 6 anos

Grande historia mas ha muita mais historias iguais ou análogas a esta. Para quem ama algo é sempre dificil.



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