Convergir Alcances: Cristo, Dionísio, Obama e EducaPoker

10 de Junho de 2011 às 22:30
Comentários 19


Este título não é para todos, mas também se poderia traduzir assim:
1$/2$ NO LIMIT HOLDEM 6 PLAYERS
UTG Villain1 $217.95
MP Villain2 $102.45
CO Villain3 $189.35
BTN UM GRANDA HEROI $215.10
SB Villain4 $151.00
BB Villain5 $300.55

Pre-Flop ($3, 6 players) UM GRANDA HEROI is BTN

d8dj

2 folds, Villain3 raises to $6, UM GRANDA HEROI raises to $18, 2 folds, Villain3 calls $12

Flop ($39, 2 players)

h7skhk

Villain3 checks, UM GRANDA HEROI bets $20, Villain3 calls $20

Turn ($79, 2 players)

s6

Villain3 checks, UM GRANDA HEROI bets $40, Villain3 calls $40

River ($159, 2 players)

cj

Villain3 checks, UM GRANDA HEROI bets $137.10, ...

Isto não quer dizer que a mão seja bem jogada, nem que o título seja bem escrito, mas quer dizer que o alcance de significado da mão se pode convergir sobre o alcance do significado do título - embora não seja o significado do título. Para compreendermos isto é preciso compreender o significado que Cristo teve para os escravos romanos, bem como o que Dionísio significava para os gregos, e mais recentemente como a eleição de Barack Obama levou a que mais afro-americanos apostassem na bolsa. O significado onde tanto um, como o outro, como o Obama convergem é no efeito messiânico das escolas de poker.

Por efeito messiânico convém esclarecer que não significo um Sebastianismo, onde um povo inteiro está à espera que um Rei adolescente e maricas volte de Alcácer-Quibir para se candidatar às eleições antecipadas deste fim-de-semana, nem uma Wall Street que espera por um candidato que revitalize as esperanças ingénuas e liberais da classe média/baixa na economia norte-americana. Quero dizer o efeito que o Ipad teve, ou as loiras em Marrocos, ou os amores de uma vida chamados Lolita: eu queria alguma coisa mas não sabia bem o quê até te ter encontrado. É por isso que Nabokov escreveu o melhor início de um romance desde que os romances foram escritos, e é por isso que O GRANDA HERÓI shovou aquele river, e é por isso que o nacional-socialismo alemão teve tanta popularidade, e é por isso que Lenine dava pau ao proletariado russo.

É da mesma maneira que o Krantz deu a cara pela deucescracked, que o CTS dava pela cardrunners e que o João Barbosa dá pela educapoker (e outros tão afamados portugueses dão pelo novo projecto português, aqui inominável por cortesia minha). Este dar a cara não significa só dar a cara de rosto, significa dar uma voz através da voz, porque foi o facto de eles existirem que criou a necessidade deles existirem. O poker seguiu mais ou menos este caminho como todas as coisas seguem este caminho.

Eu explico: todas as revoluções começam quando um grupo de reivindicações se podem convergir em torno de uma reivindicação que por sua vez cria o seu grupo de reivindicações. Que podem, ou não, ser iguais às originais. Por exemplo, os escravos romanos não queriam saber de amor pelo próximo, nem achavam que todos os homens nasciam iguais, etc. Foi o facto de terem encontrado o seu desejo expresso numa religião (serem iguais aos nobres, serem melhor alimentados, etc) que lhes criou o grupo de ideias pelas quais viveram e morreram durante os séculos que seguiram. Na realidade, quando estamos a falar de convergir alcances, ou de range merging, estamos a fazer a mesma coisa que Paulo fez com a religião católica. Porque também foi a maneira como os Krantz e os outros jogadores de poker educaram (esta coisa do educar dava outro artigo inteiro) o resto a jogar que permitiu a que outro jogador de poker chegasse mais tarde a essa coisa do range merge e dissesse FUI EU, THO SHALL NOW MERGE YOUR RANGES - independentemente de outros já o fazerem sem lhe darem um nome, etc.

Para compreender isto não é necessário que compreendam o que é convergir alcances. Basta que compreendam porque é que os escravos haitianos, em 1801, quando se revoltaram e foram confrontados com as tropas francesas, entoaram o hino Francês, cantando pela igualiberdade. A África inteira pós-colonial é, de resto, um bom exemplo. Quando gritam pela liberdade e pela independência do seu próprio estado nação estão naturalmente a expressar o seu desejo, mas a forma desse desejo tem os contornos das forças e das ideias colonialistas que lá estiveram. Em termos muito grossos, como a virilidade de um proletário leninista, é mais ou menos esta a principal qualidade e o principal defeito de uma escola de poker.

Sobre a Educapoker em particular, falarei mais particularmente.

A Educapoker passou algumas dificuldades desde o ínicio não só mas também por causa de quem deu a cara. Esquecendo de sobremaneira o fracasso da escoladepoker, parece-me óbvio que o principal preconceito sobre a Educapoker era a sua origem, os shortstackers espanhóis etc. Como se não fosse suficiente, não havia grande cara onde convergissem as esperanças de quem joga (quero dizer, existia o João, mas o João sempre esteve num nível razoavelmente intocável, nunca foi propriamente um Dwan que grindou desde os 50$ e precognizou a vinda do paraíso em cuecas e notas nos mamilos). Compreende-se portanto a mais recente campanha (na qual se inclui o mui nobre e inteligente acto de me terem convidado a assistir a umas aulas, ou workshops, ou comícios, ou missas) e é nesse e sobre esse sentido que chega o meu artigo. Não foi encomendado mas foi previsto. É bom que se entenda a diferença: porque uma coisa é sacanice e outra é marketing.

Visitei portanto a Educapoker algumas vezes, a maioria delas com o Álvaro (DarkoRed) e uma com o João Barbosa. Confesso que, além disto, ainda me foram facilitados os artigos todos na íntegra, mas passei-lhes menos os olhos do que passei no escritório Educa. Isto não foi por falta de interesse nem pela falta de conteúdo: foi pela diferença do que poderia aprender num e noutro lado. Isto não me significa a um nível estonteantemente ganhador, significa que para quem joga midstakes competentemente é natural que a maioria dos artigos fique aquém do que se espera de um Nazareno. Ou pelo menos aquém do que um dia com o Álvaro ou com o João pode trazer.

A Educapoker está muitíssimo orientada para um público muito específico, que é o público que joga limites baixos e precisa de ser levado pela mão. Disto retira-se em conclusão que será em sobejo um grande bocejo para quem joga NL100+, e em geral seria uma boa conclusão, não fosse o facto de que nem toda a gente que joga NL100+ jogar decentemente NL100+ (o que não significa que não sejam ganhadores, etc). Mas nisto do poker o sobretudo é como o das demais profissões, se não estás num cargo mais alto é porque em toda a probabilidade estarás a executar mal o teu. E digo-o porque nem o facto de eu andar a jogar shallow desde Janeiro serviu para que a Educapoker não tivesse nada para me ensinar. Ou pelo menos para me obrigar a avaliar o que eu acho que já sei. Porque obrigou. Uma das razões pelas quais o field das mesas shallow é mais proveitoso que as mesas de 100bb's é que são pouquíssimos os regulares que sabem jogar com tamanhos de stacks diferentes, ou como isso afecta a dinâmica da mesa, ou da maioria das coisas que pensam que sabem. A causa disto não é só incompetência pessoal, é a incompetência geral que a competência particular de algumas ideias, fóruns e escolas messiânicas de poker inevitavelmente também criou. Esta não é uma razão para começarem a jogar shallow: é uma razão pela qual muitos de vós deviam experimentar a Educapoker. (Sobre o shallow, fiz um vídeo há coisa de uns meses que ainda podem encontrar aqui: http://pokerpt.com/forum/cash-games-nl-low-stakes-f42/topic19480.html está datado, mas ainda é de graça)

Sobre razões e tamanhos, convém esclarecer que não estou a falar só de tamanhos de stacks, ou por outra: se estou a falar de tamanhos de stacks é porque estou a falar de fundamentos. E por fundamentos não estou a falar de elementos simples do jogo, estou a falar daquilo que se pensa que são elementos simples de um jogo. Um problema geral com a lógica é que o ser humano é demasiado linguístico. p(A) + p(B) = p(C) não significa que a proposição C seja relevante para o significado da proposição B, ou da proposição A (e não é através destas farsas analógicas que chegamos, por exemplo, à concepção de Deus?). Poderia escrever mais sobre este assunto, mas Wittgenstein já escreveu o imenso suficiente. O que eu quero dizer é que a Educa Poker serviu para me obrigar a tornar-me melhor, e é a forma como está construída (ou como a maioria do seu pensamento está construído) que devia ser mais vezes revisitada. Não só por mim, mas por "todos". Kant foi um grande pensador, o inventor dos direitos humanos universais e a consequente parafrenália de concepções vagas que hoje temos por senso comum - todavia, foi o mesmo homem que disse "se eu não posso provar que Deus não existe, é porque ele existe de facto." Portanto, se existem lugares em que não posso shippar as bluff com meio par, é porque posso shippar for value com um par. Estamos certos ou estamos errados? Estamos certos, mas por motivos errados. Se estivermos só baralhados, isso é já outra coisa.

Ainda sobre a sua organização: a EducaPoker será provavelmente a escola que segue a melhor forma económica, e o único problema é que não o siga completamente. A forma como o mercado cresceu nas últimas décadas foi a sacanice da passagem da produção material (mais-valia criada pela força de trabalho, etc Marx tl:dr) para a privatização da propriedade intelectual geral. Um exemplo glorioso disto é a Microsoft, que não enriqueceu nem pela qualidade dos bens que vende, nem pelo seu preço ser mais barato que o da competição, nem pela sobreexploração da força de trabalho. Enriqueceu pela forma como conseguiu apropriar-se da produção intelectual geral privatizando-a (apropriação de software grátis ou mais hábil desenvolvido por fora) e como conseguiu ser o representante dessa força de "intelecto" geral (o que a maioria pensa que a maioria mais gosta é aquilo que a maioria mais gosta de facto), arrendando-o. Ora, no poker passa-se exactamente o mesmo e o que cada escola representa é uma privatização de um determinado alcance de conhecimento geral. Nisto, apesar da EducaPoker seguir um modelo inteligente de venda (através do rake gerado, uma forma de renda invisível e um compromisso garantido) ainda não percebeu a importância que o branding do conhecimento tem. Ou se percebeu ainda não fez o suficiente por isso. O João aparecer uma vez por círculo lunar não é o suficiente para convergir o desejo de quem mais joga.

O facto do João Barbosa ser a única grande cara de cartaz (e salvo algumas aparições estar muito mais eclipsado da escola que os restantes "professores") não ajuda a que o mercado chegue como deva aos midstakers portugueses, e este é um problema que eu não penso que o crescimento do flyerr ou a adição da Katrina venham solucionar. Nem é só um problema de competência messiânica, é um problema que tem o comprimento exacto da distância que separa o Luís do João. E digo-o sem insultar minimamente o Luís (ou a Catarina, ou o JP, seja), porque todos sabemos o que quero dizer. Independentemente do conteúdo que a EducaPoker possa oferecer (que de facto pode), é de uma extrema importância a voz de quem o oferece. Por outras palavras mais cretinas, o alcance do cartaz que têm não está balanceado. Nem a forma como existe defende o alcance das caras dos outros "professores", porque estarão sempre à sombra do Barbosa (eles que me perdoem a analogia, mas comigo valerá sempre tudo, inclusive gostar deles). Nas palavras de um amigo meu iletrado: os livros podem descrever um pau a levantar-se, mas nunca levantarão um pau. Estamos, naturalmente, a falar de quem nunca leu Nabokov, mas duvido que o alcance de clientes que a EducaPoker pretende seja limitado a letrados de erecção precoce.

Ocorre-me que, nas primeiras aulas de expressão dramática que dou às crianças peço sempre para que não me contem os seus nomes: peço-lhes uma lista de todas as coisas que optaram por não fazer durante a semana inteira. Porque enquanto que na vida chamada real o que optamos por não fazer simplesmente não tem expressão no que existe, ou existiu, ou faz parte de nós, no palco quando optamos por estar calados ou por não estar a fazer nada isso significa sempre alguma coisa. No palco o não também é sempre uma afirmação, um sim, também diz de quem são, e é preciso que entendam a pensar dessa maneira diferente para que entendam o palco, e retroactivamente tenham uma vida plena chamada real. O problema do poker é que sofre imenso deste tipo de pensamento contra-intuitivo e é uma consequência natural que a maioria dos quems se percam nestes quês. A Educapoker oferece uma boa solução para essa gente toda (e não é uma vergonha ser essa gente toda porque todos somos essa gente toda), falta só a Educapoker perceber que não precisa só de ter os quês, também precisa de ter os quems.

River ($159, 2 players)

cj

Villain3 checks, UM GRANDA HEROI bets $137, Villain calls $111.35

Final Pot: $381,70

Villain3 shows

sasj

E se este artigo parece muito baralhado, será porque o poker é um jogo muito baralhante, e nisso, não há escola que traga milagres. Boas turras a todos e não se esqueçam de o fazer, desde que o façam com Chu.

Abraços

dos Reis.



Comentários (16) Comentários


10 de Junho de 2011 às 23:10
Filipe.14 Autor verificado disse
Lindo

11 de Junho de 2011 às 00:28
Vilelabull Autor verificado disse
muito bom!

11 de Junho de 2011 às 04:07
LBZy Autor verificado disse
uhm... volta ao início e ler de novo... muito profundo para perceber tudo perfeitamente logo à primeira... antes de iniciar o processo beber uma coca... respirar fundo... tomar uma aspirina... recomeçar novamente... ler mais uma vez... posso pedir ajuda do coach?

11 de Junho de 2011 às 06:30
11 Autor verificado disse
Muito bom, keep'em coming

11 de Junho de 2011 às 19:11
Melvins Autor verificado disse
Ok, está provado por "A+B" que os teus textos não são apenas palavras bem conjugadas. Excelente texto.

"Não foi encomendado mas foi previsto. É bom que se entenda a diferença: porque uma coisa é sacanice e outra é marketing."

Se percebi bem a amplitude desta frase, devia vir nos manuais de Gestão/Marketing.

11 de Junho de 2011 às 19:28
PlayMaker Autor verificado disse
Alguém, há umas horas atrás me disse "Tens que ler o melhor post sobre escolas de poker ever!"

Confere!

12 de Junho de 2011 às 03:59
shipower69 Autor verificado disse
BdosReis ftw!
Atrevo-me a dizer que és um Alberto Caeiro em pleno séc XXI !
Gosto dos teus textos!

12 de Junho de 2011 às 18:45
flyerr Autor verificado disse
Ou seja, achavas que me estavas a maçar naquela conversa? Não estavas...:p És apenas um pouco louco, é só =)

14 de Junho de 2011 às 02:13
andre683 Autor verificado disse
gostei...só vi as figurinhas, mas gostei

14 de Junho de 2011 às 02:16
bdosreis Autor verificado disse
Obrigado a quem leu, meaning: eu próprio.

flyerr: thats what she said :D

14 de Junho de 2011 às 02:17
bdosreis Autor verificado disse
Ah, LBZy: afinal parece que tu é que percebeste :P

15 de Junho de 2011 às 06:07
Tom_Crooze Autor verificado disse
grande texto!

16 de Junho de 2011 às 14:29
LBZy Autor verificado disse
É pá ainda me estão atravessadas as nossas lutas na Unibet, na altura eu era um peixinho e tu um tubarão dos gigantes... ahahaha...

Tens aqui um texto genial, os meus parabéns e avisa quando é que te posso pedir a desforra!

24 de Junho de 2011 às 21:28
diax Autor verificado disse
Belo texto, gostei bastante de ler. Sabes do que falas ;)

4 de Julho de 2011 às 14:59
pedrovaz Autor verificado disse
Excelente texto. Vou só contrariar que o início do livro do Nabokov não será o melhor de sempre, e por isso talvez este shove do grande herói não será o melhor shove de sempre. E, tal como o Nabokov concordaria comigo sobre qual o melhor início de sempre de um romance, acho que o grande herói também verá um dia a luz. Podendo começar por largar o nacional socialismo dos seus textos e torná-los mais próximos do neo-liberalismo. uhm, talvez não.

Abraço

8 de Julho de 2011 às 20:57
bdosreis Autor verificado disse
Pedro Vaz: ahahah, obrigado. Usei o de Nabokov por ser um tema que mais chega a todos, que é no fundo o da Lolita. Não é que concorde particularmente com o que digo. Aliás, concordo poucas vezes com o que digo: o que em nada significa que minta muitíssimo.

Quanto ao resto, nem nacional socialismo nem neo-liberalismo, fico mais ou menos onde fica o ínicio do romance de Musil. :P

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