Domingar é Grindar: Pedro Palma Ferro tem a palavra!

3 de Janeiro de 2011 às 03:59
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No primeiro Domingo do ano, falamos com o último vencedor de um Main Event em 2011, Pedro Palma Ferro! Em acção nos majors habituais, Pedro falou do seu jogo actual e também sobre a sua vitória.
A entrevista contou com alguns problemas técnicos, durante a análise do torneio deste jogador, pelo que essa parte do vídeo foi recompensada por um texto detalhado escrito pelo Campeão do Main Event Estoril (depois do vídeo).
Por Pedro Palma Ferro
Consegui o ticket para o main event no último satélite que houve no domingo anterior à grande final. Mal este acabou pedi ao Renato que me deixasse vender a entrada, pedido esse que não me foi diferido. O nicoslb estava lá e vendo-me algo perturbado com a situação disse-me: “ Deixa estar puto. Agora limpa aquilo!”.
Eu ri-me e fui para casa, satisfeito pelo ticket, mas chateado por não poder ficar com o dinheiro. Estava sem confiança e em vésperas de dias festivos, dá sempre jeito ter mais uns euros na carteira.
A meio da semana lá encontrei o Renato online no Facebook e ele pareceu ficar sensível à minha vontade em vender a entrada. Combinámos falar no dia a seguir, mas não sei porquê acordei com uma vontade tremenda de jogar, então disse ao Renato que o ia fazer. Liguei para o Tx, Lameira, Tia e Phounder e perguntei-lhes se sempre se confirmava a aposta deles na minha pessoa que em tempos (antes das minhas dúvidas) tínhamos falado. E sim, confirmava-se. Deram-me uma percentagem da entrada e eu fui jogar. (Com muito menos pressão diga-se de passagem).
Fui para lá com 2 amigos que também se tinham qualificado: André Pimenta e Filipe Guimarães. Sentei-me longe, ao fundo da sala e pela primeira vez joguei numa mesa de um torneio em que curiosamente não havia ninguém desconhecido. 8 adversários e sabia o nome de todos! Que field! Se a minha memória não falha estavam sentados por esta ordem: Joaquim Marques, Aristides Couto, Tacuara, Mário Soares, XanaXana, Phounder, Macosi e João Ribeiro
Após ter ganho 4k nas primeiras 2 mãos (numa delas tinha tt e numa board baixinha mandei 2 barriladas e o Joaquim pagou sempre (tinha 66), na outra é melhor nem dizer o que tinha, ahah, mas correu bem), percebi que a lógica do dia 1 era ser paciente, sendo que não valia a pena aventurar-me demasiado, ainda por cima estando com febre e cheio de dores de cabeça, talvez pelo calor que se ia avolumando naquela sala. Estava eu no meu cantinho quando surge uma mão que não foi a mão da desgraça porque a estrutura era deep, mas quase. Eis que me engano a ver as cartas tendo 78s e pensando na minha cabeça ter 67s. A board não me oferecia nada para além de um top pair, pensando eu ter completado straight. Do nada desci às 19k e pensei: pronto, já estraguei o torneio. Mas não, o intervalo fez-me bem e os meus amigos acalmaram-me. E eu cumpri. Após ter feito o XanaXana largar top pair, quando a mãozinha dele estava um bocadinho à frente da minha, moralizei-me e até ao final do dia fui aproveitando para abrir o máximo possível, recuperando o que tinha entregue anteriormente.
Acabei o dia na média, sendo que destaco a consistência do Mário Soares que ganhou todos os potes em que se envolveu e claro, um grande prazer em ter jogado com o Phounder, amigo recente, mas importante!
Quanto aos meus amigos, o André tinha perdido, após ter esbarrado cara-a-cara com ases numa board propícia às suas daminhas, mérito para o adversário que escondeu o monstro muito bem e o Filipe após ter subido às 50k, teve um cooler pouco auspicioso com a Catarina Santos, que o fez terminar o dia com 16k.
Voltámos no dia seguinte e mais uma vez a minha mesa não era de todo aquela desejada, já que sentaram à minha esquerda o Carlos Oliveira, que ainda por cima começou o dia bem e não parou de exercer pressão. Eu que tanto gosto de abrir e tribetar tive muito respeitinho e como já não me queixava do facto de não ver uma mão de jeito (JTs chegava) comecei a conversar bastante com ele e ele lá me foi deixando abrir umas quantas vezes ahah. Eis que surge uma das mãos do torneio, no meu entender a segunda mais importante: blinds 200/400 estou na bb tenho j9 off – raise utg 950 call mp call da small , call meu, flop 7 8 t woooow brutal lol – o mp mandou uma calhauzinho de 3k eu raisei para 7500 ele deu call e veio um k no turn, que me mantinha sempre a frente, mas que não me deixava checkar. Olhei para a minha stack e tinha 20k, pedi a contagem da stack adversária e tinha mais 6k que eu. Shovei directo. Não levei insta-call e eis que o senhor me pergunta as horas, eu finjo-me nervoso, começo quase a saltar de um lado para o outro da cadeira, o senhor pergunta-me as horas e eu digo 17h, ele pensa olha outra vez para o relógio e eu pergunto: tem dois pares não é? E ele diz que sim, seguido de call. E a board não dobrou. Zimboraaaa!
Mudaram-me de mesa muito rapidamente e fico com o Team Pokerstars Henrique Pinho à minha esquerda, muito curtinho e com o simpático André Moreira do outro lado. O Pedro Marques estava longe, do outro lado da mesa e ainda bem, assim a acção entre os dois ia ser o menor possível lol. Esta mesa foi a que me levou ao dia 3, sendo que são de destacar 4 mãos importantes, a primeira das quais quando a acção chega até mim na small e eu com 80k olho para o meu A5 e para a stack de 11k e 11bbs do Henrique Pinho na big e empurro a minha stack. Levo insta-call e vejo um brilhante k7 (a minha mão fetiche ) nas mãos dele, mas pronto holdou!
Pouco depois e após roubar e ser roubado (houve uma mão curiosa de tribet e forbet entre mim e o André Moreira em que ele me mostra orgulhoso o seu T5 e eu vou buscar ao muck o meu 72 lol, rimo-nos um bocado) há uma mão interessante. Abro utg + 1 com AJ e levo a tribet do costume do Pedro Marques no botão. Pensei em forbetá-lo mas como sei que ele é maluco e bom jogador o suficiente para mandar mais outra calhoada optei pelo call. O flop foi baixíssimo e checkámos os dois, assim como o turn, no river a board dobrou e joguei em check call. A jogada parece normal, mas há que dizer que o barril mandado pelo Pedro no river foi de 30k, quando o pote não ultrapassava os 20k. Ace high, disse-me ele. E eu : “isso sei eu, mostra lá o kicker” e era um j! lol tanta coisa e splitámos.
Já a caminhar para o final do dia houve dois momentos muito importantes. O primeiro quando o Padrinho, que entretanto tinha chegado a mesa, acompanhado pelo Arise, shova directo 20bb’s (metade da minha stack) e o André Moreira isola no botão. Eu na bb tenho tt e largo fácil, sendo que dava call ao Padrinho caso não tivesse havido este movimento. Tinham os dois AQ e o A acabou mesmo por sair no turn, muito festejado por mim, diga-se por sinal! Estávamos a chegar ao último nível do dia e AA,KK, QQ,JJ nem vê-las. Mas se calhar foi isso que me safou, já que o meu amigo Yuran esbarrou duas vezes em ases, quando também tinha uns monstrinhos. Mas chegou onde chegou!
Enfim, neste capítulo final do dia 2, houve uma mão muito importante numa altura em que a media estava em 115k. Eu tinha perto de 105k e tinha AQs na SB e estava perante o open shove do costume (uma vez por órbita) da Moranguita – numa das vezes o dealer virou 77 sem querer, o que me permitiu ver que a range não era assim tão limitada quanto isso.Era mais uma vez metade da minha stack, mas ao mesmo tempo era a passagem para um dia 3 mais seguro e em que pudesse meter pressão. Isolei e vi qq. Bateu para mim. Acho que a minha mão foi o limite daquilo que é aceitável e sendo assim passei ao dia 3 com 170k, em 13º num total de 48 jogadores.
O estado de espírito a caminho de casa era o melhor possível, já que mais uma vez estava acompanhado pelo Filipe, que tinha entrado para o último nível com 4 bb’s e se tinha aguentado, conseguindo dobrar a stack mais do que uma vez e estando na média naquele momento. Dois amigos felizes a caminho de casa, mas algo expectantes, quanto ao desfecho do último dia.
O dia 3 começou muito tranquilo, tendo conseguido roubar uma ou duas vezes por órbita, chegando facilmente às 250k, até que perco a primeira corrida da noite, 55 vs AQ para um dos shorts, que ainda assim me abanou de alguma maneira a stack. Fiquei chateado por ter saído o galo no river, mas procurei controlar-me, abrandando o ritmo , até que chego a uma das mãos mais importantes do torneio. Blinds 5/10K tenho 170k e o meu adversário tem 130k. Faço complete na small e vejo o João Ribeiro (que tinha jogado comigo nos últimos 2 dias na mesma mesa) fazer check na big. Tenho qj e o flop é kqj. Mando 10k e levo call, turn 5 (20k call ) e river k, que não é a melhor carta do mundo, mas que me assusta menos que um A ou um T. Checko, esperando que o João faça o mesmo, ou que tente levar o pote de alguma maneira e eu possa igualar, mas eis que o animado amigo do Porto resolve empurrar as suas últimas 90k para o meio da mesa. Dei insta-call e vi as cartas irem para ao muck! Vamooos! A partir daqui foi o dia mais perfeito da minha vida. Pressionei a bubble, abrindo quase todas as mãos e aproveitando o cananço geral, sendo que confesso que o facto do segundo chip leader da mesa ser o meu melhor amigo me ajudou e muito, já que não estava com a pressão de ter alguém com a minha stack na mesa. Conheço bem o jogo do Filipe e sei que ele ia jogar de forma muito controlada e eu saberia quando desistir da mão em questão. Quantos aos restantes adversários, estavam todos a esperar pela bubble. E eu aproveitei. AA, KK, QQ, JJ nem vê-los.
Eis que chega a mão da bubble. Blinds 12/24 – eu abro para 57k com A9 o Victão empurra as suas 85k eu sei que estou atrás, estou dominado por um par acima do meu brilhante 9 ou por um k ou q que acompanhe o A dele, mas não posso largar a mão, ainda para mais tendo 500k atrás. A sorte esteve do meu lado, ou mais propriamente dos shorts da mesa e os KK do meu adversário foram batidos pelo meu straight. A partir de aqui destaquei-me na chip lead e continuei a fazer o meu jogo de pressão qb, nos momentos que considerava adequados. Numa altura em que estava com 700k tive aquele que considero o momento mais importante do torneio, quando após o meu 66º raise utg o Pedro Maia shova pela 55ª vez no botão e eu dou call com qq. Clássica corrida contra ak que me trás um flop do outro mundo com uma dama e duas cartas indiferentes e que me faz sentir pela primeira vez que posso vir a fazer algo de importante neste torneio.
A partir daqui não sei o que se passou, não voltei a ter damas, mas tive a estrelinha, corri 6 ou 7 vezes e ganhei sempre! Se perdesse não comprometia a stack em nenhuma das situações, mas ganhando cheguei ao top 10 com mais do triplo da stack dos adversários. Até que chegamos à bubble da ft e eu cometo aquele que considero ter sido o meu grande erro do torneio, não tendo noção que o Tomé Moreira tinha 700k e tendo shovado em open handed. Um dos 8 outs bateu e cheguei à FT com 3.000.000 de fichas. O Filipe não me largava e estava atrás de mim com 750.000, a uma distância considerável e que me obrigava a fazer top3. A FT foi curiosamente o pior período do dia. Dobrei 2 shorts e de forma um pouco triste, AK para KJ e KQ para K2 e perdi dois potes gigantes para o Vgeta, num cooler e num bluff mal calculado.
AA, KK nem vê-los lol. Mas eis que sem eu dar muitp por isso, o Filipe é eliminado pelo Vgeta (GG Filipe!) e estamos 3, eu o vgeta e o imcomparável sr. Aníbal que é muito difícil de enfrentar pré-flop mas algo passivo a jogar a board. Tentei explorar isso, assim como o Vgeta e não correu mal. De referir também que sempre que shovava, tinha uma mão marginal e quando raisava estava monstro. Eu sabia disso, mas o melhor que tive foi AJ e mais uma vez no momento certo . O Sr. Anibal shovou directo da small e eu dei snap call – O A8 do adversário não melhorou e estávamos em heads up, sendo que eu estava em desvantagem para com o vgeta.
Neste momento surgiu a discussão do chop e eu garanto-vos que tinha a certeza absoluta que ia perder lol então, tendo eu 2,5 e estando a jogar contra 3,5, aceitei a única proposta apresentada de + 3 k garantidos para mim e 5 k para o vgeta sendo que ficavam 3k reservados para o vencedor.
A pressão do dinheiro foi-se embora e joguei o heads-up, especialidade que tanto gosto, descontraído e com grande confiança. Após ter ganho um pote gigante com o belo do meu 62 numa board perita em cartas altas, chegou a mão decisiva onde fiz exactamente os mesmos movimentos da mão anterior e onde tive a sorte de ver nas mãos do Sérgio um trio de oitos que não bateu a minha sequência.
A festa não foi imediata porque ninguém sabia quem estava a frente naquela altura. Mas pronto, era eu, por uma ou duas fichas, mas estava feito. O meu irmão e os meus amigos aplaudiam lá fora e eu não via nem ouvia nada, o Sérgio e os amigos cumprimentaram-me e felicitaram-me assim como os dealers e quem estava a ver. Mas eu estava noutra! Ainda hoje estou. Não acredito que isto aconteceu. Ainda bem que não é um sonho, que existiu mesmo! O que seria há uns tempos atrás eu dizer a alguém que ia ganhar o Main Event. Não estou contente pelo dinheiro acreditem, estou feliz pelo feito. A minha vida continua a ser a mesma, mas com aquela satisfação e aquele sorriso estampado na cara.
Obrigado António Cunha por teres estado lá quando mais precisei, obrigado Henrique Horta por me teres feito ver que com cabeça tudo se endireita, obrigado Luís Lameira por me teres feito evoluir desta forma, obrigado Rafael Uva por estares lá nos momentos mais importantes da minha vida, obrigado Tiago Rosa por teres confiado em mim, obrigado Pedro Nicolau pelos incentivos ao longo da semana, obrigado Francisco Yuran por me teres dado a força que eu precisei nos momentos mais críticos do torneio, obrigado!


Comentários (2) Comentários


3 de Janeiro de 2011 às 17:57
Diego16fcp Autor verificado disse
Parabens puto! Reparei logo de onde te conhecia!
Portimao sit and go de 30 mokas, foi um gozo do caraxax... Parabens pela tua vitoria so soube com este artigo! Abraxo gl this year

3 de Fevereiro de 2011 às 12:59
mankitolas Autor verificado disse
Pedro, ainda não tinha lido o post pois não sabia da existência deste blog.
Mais uma vez, parabéns pela vitória.

Abraço.

PS: Aproveito e faço uma correcção: não é 'open handed' mas 'open-ended'.

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Pedro Ferro

Pedro Palma Ferro é um jovem estudante de Comunicação Social que terminou o ano de 2010 com o título de Campeão do Main Event do Estoril Championship! O Poker é um hobbie e os Sit&Go's são a sua modalidade favorita.


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