WSOPE Experience - Parte 2
12 de Outubro de 2009 às 11:33
Dia 1-2
Tenho-me esforçado mesmo muito nos eventos grandes de No-Limit, estive bem no Dia 1 em Barcelona mas fui esmagado no início do Dia 2.
A minha mesa inicial era muito doente, em termos do nível de skill. Durante todo o dia, apenas um jogador não tinha equity positiva a jogar torneios como sobrevivência. Annette Oberstad esteve fantástica, durante todo o dia. O Ray D., um jogador muito talentoso nos cash games, esteve muito concentrado. Ele e a Annette batalharam durante o desenrolar do dia. Os miúdos, à minha direita e à minha frente, estavam rendidos.
Juntem Barry Greenstein, Chris Fergunson e outro grande jogador chamado James Keyes e tínhamos um jogo muito sofisticado, o que é muito divertido. Já agora, quando perdemos um jogador, o Shaun Deeb preencheu o lugar vazio, com uma stack monstra!
Adorei, porque para competir, sabia que tinha que jogar o meu melhor poker, que inclui mais criatividade e mais agressão pré-flop. Eu fiz reraise, pré-flop, mais vezes, neste dia, do que nos 7 torneios anteriores juntos!
Também fiz limp com maior frequência, de todas as posições, com uma maior variedade de mãos. Estava mesmo a jogar com um “flow” que vinha a falar… talvez estar exausto, todo o dia, ajudou-me a jogar melhor. Por vezes, no estado de cansaço máximo, sigo apenas os meus instintos, o que é normalmente um bom plano.
Estava ansioso por dormir e jogar no dia seguinte, pois acabei o dia perto da liderança com 88,925 fichas.
Gostei muito de jogar com a Annette. Foi a primeira vez que joguei com ela, na mesma mesa, i acho que ela está muito melhor agora do que quando conquistou as WSOPE. Está mais experiente como é suposto. Está a jogar com muito mais requinte!
Tenho jogado mais poker, diariamente, na PokerStars.com, em 8-game mix. Enquanto não estou a jogar No-Limit Hold’Em, estou a jogar com bons jogadores, o que me coloca num estado mental diferente dos torneios típicos. Estou com “fome” e a usufruir do jogo.
Estava a ganhar todos os dias, em 8-game mix, mas tive uma pequena quebra, em 4 sessões:
-25k
-25k
+14k
-20k
Estes resultados podem ser analisados como pequena variância, para o jogo que é, e, como tal, não estou preocupado. Sinto que tenho uma boa vantagem no 8-game mix e estou mesmo a gostar.
Dia 3
Tive um dia movimentado, em termos de stack, das 89,000 às 127,000 e acabou nas 113,100 fichas, que foi onde andei durante a maior parte dos 4 níveis. Nunca baixei das 90,000, evitei confrontações de maior e estou muito contente com essa decisão.
Mudei de roupa 3 vezes! Todos os intervalos ia comprar algo novo. Estava na TV Table o que significou: nada de massagens e muitas luzes brilhantes e quentes! Entrei com uma camisola azul e sai com uma t-shirt e um chapéu.
Não se pode usar quaisquer logótipos nos chapéus, por isso o meu boné PokerStars.net não pode ir. No dia seguinte fui melhor preparado – só t-shirt e chapéu. O chapéu apenas serve para proteger das luzes. Passei pelo mesmo no ano passado e estive bem, apenas preciso de alguns ajustes.
Não queria acreditar quando me levantei, para o dia seguinte, e encontrei o sorteio da minha mesa. Estava em 38º lugar, em fichas, e era o chipleader da minha mesa, por mais incrível que pareça! Não é costume acontecer isso com menos de 100 jogadores em prova:
1.Daniel Negreanu 113,100
2.Jani Vilmunen 65,500
3.Kim Wooka 22,000
4.Men Nguyen 27,500
5.Arnauld Mattern 86,600
6.Jean Montury 25,800
7.Leo Margets 48,300
8.Elijah Berg 91,900
9.Michael Wang 60,700
Conheço 3 jogadores da mesa. Men Nguyen, obviamente, Jani Vilmunen, com quem joguei ontem e conheço através do Patrik e, finalmente, Leo Margets – “The last woman standing” – de quem me torneio fan depois de ver algumas entrevistas online dela. Ela impressionou-me muito a maneira como ela se comporta nas entrevistas, sem fanfarronices ou arrogância e um excelente domínio da língua inglesa, embora não seja a sua língua materna.
Sou um pouco cromo do poker e vejo muitas entrevistas online e ela é a melhor “nova estrela” que vejo em anos. Energética, inteligente e humilde.
A composição da mesa, embora seja chipleader, não é a ideal. Há demasiados “short stacks” na mesa para poder jogar um grande volume de mãos, com proveito, visto que os short stacks têm maior probabilidade de te fazer reraise do que um jogador com uma stack confortável.
Por exemplo, quando estou no “cutoff”, as blinds (Men Nguyen e Wooka Kim) têm ambos menos de 30,000 fichas. Com as blinds a 800/1.600, o meu raise standard é 3.800. É uma posição chata se quiser fazer raises com mãos marginais. Arriscas-te a levar demasiados calls, nesta posição, mas eu tenho uma aproximação diferente da maior parte dos jogadores online. Estes jogadores têm tendência para fazer call nesta situação do que eu. Embora seja a forma correcta de jogar nos torneios mais rápidos, nestes eventos “deepstack” acho que é um erro. Como és um dos melhores jogadores da mesa, com a matemática tão aproximada, fazer fold é a melhor opção.
O conceito é semelhante ao porquê não “correr” pré-flop uma situação de “coin flip”. Vamos assumir que SABEMOS que o adversário tem AK e tens 55. Custa-te 18,000 para ganhar 19,200. No papel, o teu 55 é favorito e tens um bom preço para pagar. Fazer call não é exactamente “incorrecto”, mas acho que é discutível se é a melhor decisão, porque o que ganhas com o pote não compensa o que podes arriscar, ao perderes o “flip”, em termos de oportunidade.
Por isso, se tens probabilidades de 2-1 para o call e sentes que o teu oponente tem uma média de vantagem de 2-1, contra a tua mão - é fold. As probabilidades não são suficientemente boas! Num torneio, não precisas de fazer call em apostas “even money”, num “flip”. Se és um jogador ganhador, deves procurar situações em que tens valor significativo.
Dia 4
Estou muito contente com a forma como estou a jogar. Aprendi muito sobre mim durante este torneio e reconfirmei outras coisas que já sabia. Competir contra adversários de alto nível trás o melhor de mim. Gosto mesmo de jogar e pensar ao mais alto nível.
Estava em 12º, de 36 em prova, com 3214,500 fichas. A mesa para o dia seguinte era esta:
1.Tony Cousineau 257,000
2.Arnauld Mattern 469,500
3.Konstantin Beucherl 156,500
4. Tommy Pavlicek 266,500
5. Shandoi Demjan 367,500
6. James Akenhead 153,500
7. Markus Ristola 157,000
8. John Kabbaj 448,500
9. Daniel Negreanu 314,500
Tinha marcado para uma sessão fotográfica para a PokerStars, mas não deu. Tinha planeado jogar o High Roller, no EPT, mas os planos foram outros. Mal acabou o Main Event das WSOPE voei para LA para filmar o novo programa na FOX, o PokerStars Million Dollas Challenge.
Temos um grupo fantástico de participantes no programa, até, fora de brincadeira, um padre católico jogador de poker. Depois informarei quando o show das datas em que for para o ar. Vai ser muito fixe!
Dia 5
O Poker não é o que era. Nem perto disso. Este é o seguindo ano seguido que faço Final Table nas WSOPE e, no ano passado, defrontei a mesa mais difícil até… este ano.
No “passado” a percentagem de excelente jogadores era muito menor. Com 20 jogadores em prova, tinhas 7 ou 8 que estavam felizes por terem chegado ali e não tinham jogado assim tão bem. Isso simplesmente não acontece num evento destes. É, sem dúvida alguma, o torneio anual mais duro que existe. Com a maior parte do field composta por prós e com uma estrutura muito “deep”, sortudos são menos e aparecem mais espaçados.
Sempre disse que quanto maior o número de amadores, ou maus jogadores, existem nos torneios, mais desequilibrado é a quantidade de skill no evento. Por esta razão, estes maus jogadores vão, normalmente, fazer grandes erros e doar as suas fichas a algum pró. Há alguma sorte nesta particularidade. Quem é que vai ser o pró a recolher a doação ou vai ser eliminado num “suck out”.
Quando cada mesa do torneio é composta, principalmente por prós e apenas polvilhada de alguns maus jogadores, não podes contar com a “sorte” para ganhar o torneio. Tens que jogar a um nível muito sofisticado.
Gostei, verdadeiramente, deste evento. Para poder competir tive que trazer o meu “A-Game”. Num torneio normal, a minha estratégia passa por esperar pelos erros dos adversários. Quando jogas num eventos destes tal não acontece, tens que ser tu a forçar os erros dos oponentes.
Nos “velhos tempos” a maior diferença era jogar nos níveis mais avançados. Detesto admitir, mas era fácil construir uma grande stack e dominar o torneio, com 2 ou 3 mesas. Já não é assim. Há melhores jogadores. Muito melhores. Já não me deixam fazer o que quero, como quero, tenho que encontrar novas e mais criativas formas de conquistar fichas.
Uma das coisas que comecei a fazer neste evento, algo que não fazia à anos, é adicionar o limp ao meu reportório. Tenho misturado o meu jogo, raises pequenos, limps, alguns reraises aqui e ali, etc. Tentar adicionar mais camadas ao meu jogo e mais psicologia também, manipulando a dinâmica de jogo como pretendo.
Ultimamente tenho tirado muito prazer em jogar poker. Não tenho jogado golf e passo mais tempo online, na PokerStars.net. Não no No-Limit Hold’Em mas no 8-game mix, mas é poker e mantém o meu cérebro no jogo.
Entrei na Mesa Final com poucas fichas, ensanduichado entre dois November 9’s. Tinha 438,000 fichas e as blinds estavam em 10,000/20,000 ante 3,000. Entrei no cutoff, por isso não tinha pressas. Não me achava em desvantagem. Claro que precisava de um pouco de sorte, mas estava preparado para ganhar!
Depois de 17 horas de Mesa Final, uma sessão fotográfica e do voo para LA, estou de volta aos EUA. O choque inicial de ficar em segundo já se gastou, o que me deu a oportunidade de refletir na minha carreira, na minha vida, onde estou, onde estive e onde quero ir.
A Mesa Final começou melhor do que podia desejar. Embora short, consegui construir a minha stack e tornar-me um candidato após um nível de jogo. Eliminei 7 jogadores no meu caminho até ao heads-up contra Barry Shulman. Acho que as mãos-chave serão excitantes de ver na TV:
Mão #1: 3 jogadores em prova, Barry estava short e faz all in, no botão e, devido a um erro do dealer, dobrei-o. Era suposto ter Q-2, um fold fácil, mas o dealer levantou demasiado o 2. Por isso, o 2 foi virado e substitui-o por um A. Fiz call ao Barry e perdi contra o J-10. Esta mão não aconteceria se o dealer não tivesse virado o 2 e o substituísse pelo A.
Isto é algo que me irrita um pouco. Claro que sei que o dealer não o fez de propósito e que o fim podia ter sido a meu favor, mas estes erros chateiam-me. Se não tivesse acontecido isto, esta mão não se teria passado e a história seria sempre diferente.
Tendo assistido, durante toda a minha carreira, a várias situações destas, parece que corre sempre mal para mim. Claro que nada posso fazer por isto, não posso, obviamente, fazer fold de AQ aqui, mas parece que o historial destas situações me desfavorece.
O dealer veio ter comigo, mais tarde, e expressou o seu sentimento de perdão, mas claro que não o culpei. Embora me irrite, não acho que o dealer deva ser castigado por isso, “acontece”.
Mão #2: Cedo no heads-up, blinds 40,000/80,000, eu fiz mini-raise para 160,000, no botão, com AA. Barry fez reraise para 460,000 e eu fiz apenas call. O flop veio K-8-3 com duas copas. Barry aposta 500,000 e eu fui all in. Ele faz instant call com A5hh. O título estava em jogo ali. Se escapasse ao flush, arrecadava a minha 5ª bracelete. O turn trouxe a copa e o river o último e insignificante “Ás”. Esta mão trouxe-me para as 2 milhões contra as 8 mihões de fichas do Barry.
Mão #3: Lutei imenso e consegui recuperar a liderança, 6 contra 4, até que acontece esta mão: blinds 60,000/120,000 ante 15,000, Barry raise para 250,000, do botão e eu call com –qc—jd-. O flop –js—8d—5d-, deu-me top pair. Eu check, Barry 300,000, eu raise para 900,000, e ele vai all in. Com uma board com tantos draws e tantas fichas no pote, o fold seria uma opção horrenda. Depois de me decidir pelo check/raise, fazer fold não era uma opção. Não existe meio termo, fiz call e o Barry tinha AA. O turn trouxe um J!!!! Estava a uma carta de conquistar o título e o Barry precisava de um dos dois ases do baralho. River A. O Poker consegue ser tão mau de vez em quando!
Na última mão, Barry raise para 250,000, eu faço all in, de 2 milhões com 44. Ele fez call com 10-10 e foi o fim. Segundo lugar. Detesto segundos lugares, não me consigo habituar. Nunca costumava ficar em segundo, ganhei as primeiras 8 mesas finais que joguei. Ok, demasiado bom, mas acho que o tempo já equilibrou as contas.
AS WSOP foram complicadas neste aspecto. Tenho 4 braceletes, 4 segundos lugares e um terceiro, onde era o chipleader destacadíssimo contra 2 amadores. Podia ter 6 ou 7 braceletes agora, mas fiquei nas 4. Não estou contente e acho que devia ter mais, acho que deviam ser 6, no mínimo. O segundo lugar colocou-me no topo dos maiores vencedores em torneios, com mais de $12 milhões de ganhos na minha carreira. Tenho orgulho mas acho que o Ivey vai dominar em Novembro! Ele precisa de um 5º ou melhor, embora ache que ele vai ganhar. Ele é o melhor jogador do mundo e tem muitas fichas para jogar. Precisará de alguma sorte, mas se ele chegar às 20 milhões de fichas, cuidado!
Em Janeiro perguntaram-me quais eram os meus objectivos para este ano e o meu #1 era ultrapassar o Jamie Gold na lista de maiores vencedores de torneios. Check.
Depois do torneio estava um pouco emocional. Perguntaram-me “Sempre que perdias um grande pote, nunca desististe e continuaste a batalhar…” Pensei na minha mãe. Respondi algo como “Eu não desisto. Nunca desisto. Acho que herdei isso da minha mãe. Ela é uma lutadora, aprendi isso com ela.” Não que lidar com o ataque cardíaco e jogar um torneio seja comparável, mas o espírito de luta, a vontade de sobreviver, alguns têm, outros não. A minha mãe, na opinião de todos os médicos, já deveria ter falecido, no entanto, está a fazer progressos. É uma evolução lenta, mas é constante. Ela está muito próxima de falar de novo!
O meu irmão esteve com ela à pouco tempo e viu na boca dela as palavras “Ele vai ganhar, ele vai ganhar!” Ele transmitia-lhe as boas novidades da minha prestação na Mesa Final e ela sorria. Sei que ficará contente com o meu segundo lugar, mas o primeiro seria muito mais fixe!
O torneio acabou por volta das 5h30 e às 6h15 um carro veio-me buscar para a sessão fotográfica para o anúncio da PokerStars. Depois de 5 dias seguidos a jogar e toda a noite, fui directamente para o hotel, fiz as minhas malas e fui de carro para a sessão que durou o dia todo, sem dormir,
Correu melhor do que estava à espera, mesmo que o meu joelho esquerdo esteja em dor, por causa do Thai boxing que estive a praticar com o meu amigo Sam. Logo após as filmagens, fui directo para o aeroporto e para LA, participar no “PokerStars Million Dollar Challenge”, na FOX, que irá para o ar dia 11 de Outubro. Adoro o conceito do programa e estou entusiasmado com o projecto. Está atento!
Estarei em LA durante os três dias de filmagem e depois voltarei a Vegas. O meu campo em Vegas, o TPC Summerlin é, de novo, o local onde se realizará o evento PGA em benefício do Hospital Shriners e, este ano, vou jogar o Pro-Am, o que será muito divertido. Acho que o Hellmuth vai jogar também e yum yum, quero fazer algumas apostas contra ele no campo de golf! O meu swing pode ser horrível mas ao lado dele pareço o Jack Nicklaus.
Depois do golf, vou jogar o o WPT Bellagio e não podia estar mais entusiasmado com o meu jogo de torneios. Sei quando estou a jogar bem e quando posso fazer melhor. Nas WSOPE joguei o meu melhor poker. Ajuda-me quando enfrento competição de topo, força-me a jogar o meu A-Game. Acho que é um erro jogar tão sofisticado contra concorrência menos elevada porque o teu jogo vai-se perder nos erros dos adversários.